sábado, 9 de maio de 2009

Ódio e poluição




Esta história, veja bem, foi dando-se tão clara quanto é clara a vida. Aconteceu por uma liberdade de fatos. Naquela quase noite de chuva insuportável, o ônibus finalmente chegara.  Adentrei, cumprimentei o cobrador, sentei. Pensei um pouco e adormeci num sonho eternal. Acordei bruscamente. Não era nada. Levantei a cabeça bem vivo e já de imediato avistei ao entrar pela porta da frente um vendedor de doces. Fez sua apresentação com ânimo, aguardou o interesse de alguém. Levantei a mão, ousado que sou, pedi três chocolates. O chocolate tinha uma embalagem toda enfeitada com desenhos de brigadeiros por toda parte. Abri. Não, eu não abri. Estava abrindo quando percebi sem graça que uma criança sentada no colo de uma mãe estava olhando-me atentamente com olhos de fome. Eu, apaixonado que sou, ofereci um dos meus chocolates à criança que eu já anonimamente amava. Aceitou o chocolate, quase chorando. A senhora do menino agradeceu: “não precisava”, dizia doce. Agora sim, abri meu chocolate. Comi. Cresci em êxtase. Dentro do ônibus a melhor coisa era comer chocolate. O vendedor de doces desceu no ponto. Meu destino não chegava nunca, haja vista o doloroso engarrafamento, o que me atormentava a vida todas as noites de sexta-feira. Mas eu amava a vida e a criança amava o chocolate. Abriu de mãos leves, deveria ter cinco a seis anos. Ao abrir, deparou-se com o chocolate negro de saboroso. Sorriu, riu pesado de paz. A mãe do menino achou graça e olhou-me como se quisesse abraçar-me. Ansioso, mordeu o desejado chocolate. Ele comia devagar, como quem quisesse guardar pra sempre um tesouro. Comia. O ônibus respirava. Mas o dia não estava programado para dar certo. Assaltado por um grande espanto, para minha surpresa, o menino começou a me olhar diferente, o ônibus interno de mim mesmo começava a entrar em turbulência. Constatação: o doce pareceu-lhe amargo. A criança a quem minutos antes o meu amor eu entregava, maltratava-me agora com uma expressão de cólera e horror.  Ele não gostou do chocolate. Meu Deus! Jogou o chocolate pela janela ainda com embalagem. Morri. Sobrevivi sem acreditar. A mãe da criança passou a me olhar com intensa raiva. O que fiz? . Levantei-me forte da morte, refleti. Aquela criança não só poluiu o meio ambiente como a mim também. Poluiu-me de ódio. A minha solidariedade de adulto a ofendeu? O que fez aquela criança jogar fora, e pela janela, o tal chocolate? O que suscitou subitamente aquele ato poluente de uma criança aparentemente feliz e ingênua? Mas enquanto ao menino? Será que foi contaminado por um amor áspero e direto que era o meu? Pior é saber que até hoje se mata a natureza. Infeliz de quem polui, não sabem da condição de vítima em que se colocam. Mas se tão-somente fosse eu morto naquele momento de falta de educação doméstica, tudo bem, mas a natureza, com tudo o que nela existe, é quem levou um tiro. Um tiro que só ela sabe traduzir a dor. A embalagem jogada pela criança vai se decompor gota a gota. Levará anos fazendo sangrar o nosso asfalto urbano. Naquela noite, eu presenciava a poluição da vida, e a poluição de mim mesmo. Fui poluído até o fim de mim. A natureza deu um dos seus gritos de dor e socorro. Eu também gritei um grito interno. Gritei um ódio de macaco selvagem. Eu também sangrei. Porque eu, ambientalista de mim mesmo, sofri a dor da decomposição daquela embalagem. Senti em mim o plástico preso dentre os ossos, impregnado para sempre em minha mente. Aquela embalagem ficaria por muitos anos na natureza caso não fosse reciclado. A poluição era imensa. A criança era imensa. Eu era imenso em dor. A cada dia o centro urbano vem poluindo de maneira irresponsável o meio ambiente. O ar, a terra e a água estão cada vez mais poluídos. Coitados de nós dois, amado leitor. Juro que dera meu amor juntamente com aquele chocolate. A criança não gostou e jogou fora. Jogou fora o meu amor. O ônibus sussurrou em pânico e agonia. A mãe do menino balbuciava em ódio de mãe. Eu era um homem sem culpa. A poluição do menino não vinha só dele, mas de uma criação que lhe foi dada. Eu fui aos poucos me refazendo em passageiro sereno. A poluição me angustiava a vida. Eu teria ainda filhos? A criança deixou-me em dúvida. O ônibus continuou seguindo. Eu não era nem mais feliz. A criança matou-me, ressuscitei por persistência. O meio ambiente chorava dores de decomposição. Já se passava vinte minutos daquela cena. A decomposição tinha começado na natureza. O ódio tinha começado em mim.

Revisado em 21/02/12

4 comentários:

  1. Grande Pedro!

    Esse seu texto é excelente. Muito bom mesmo. Parabéns! Amanhã na aula, proponho que conversemos, para que eu possa apresentar, de maneira mais sólida, a minha opinião (se for do seu interesse sabê-la). Desejando um abraço,

    Murilo Rafael.

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  2. Aêêê Peu!! muito massa o texto!!
    que Deus continue te capacitando e te aperfeiçoando nesse talento, admiro muito vc como escritor, Deus te abençõe grandemente!
    assim que seu primeiro livro sair nas lojas, vo correndo comprar!!! hehehe
    bjuuh.

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  3. Este texto é simplesmente maravilhoso, está no nível dos melhores escritores da literatura brasileira. Parabéns Pedro.

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  4. carambola carantina, caraaaaaaaaaa, to de boca aberta

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