sábado, 9 de maio de 2009

Os de Segunda- Feira




Eu escrevo agora, meu Deus, com algum ódio da vida que é absurdamente desigual. Eu escrevo para de algum modo eu me detestar um pouco mais, porque só me vendo com rancor é que eu escrevo sobre o mundo com uma perfeição de fatos. Quando me odeio, por algum ângulo sei que odeio o mundo também. O mundo está em mim? Quando me cuspo o rosto, sei que estou cuspindo o que é mais terrível e intolerável em mim. É que, meu Deus do céu, não sou tão bonzinho e sei que já fiz divisões de pessoas e as determinei “melhores” ou “piores”. Eu sei que agora eu entendo tudo isso com alguma dor disfarçada, mas eu sei que matei e puni quando tive preconceitos de um outro alguém. Eu também julguei, e quando se julga, acaba-se de matar novamente, mas dessa vez é com tiros por todo o corpo, tiros que me atingem por atingirem também aos espelhos. A sensação de estar sempre diante de um espelho é uma mastigada verdade que tive que aprender. E é por isso que sou atingido quando balas atingem aos espelhos: as balas me vêm como reflexo direto e reconhecedor como se possuíssem faro. Mas eu também pequei em uma tarde de segunda-feira. Eu fiquei sabendo que um cinema muito famoso cobrava dois reais pela entrada em dia de segunda-feira. Nunca descobri o motivo disto, mas a questão é que quando se abaixa o preço, pode-se abaixar também o nível de pessoas. Será? Mas foi isso mesmo que eu pensei, ora bolas. Quando se cobrava quinze reais a entrada-inteira do cinema, só iam pessoas normalmente bem arrumadas. Mas com o mudar dos fatos, isso continuaria assim? As pessoas seriam as mesmas? Acaso bem-arrumados vão ao cinema dia de segunda-feira, sabendo os mesmos que o ingresso estão mais barato? E que podem, agora, se coadunarem com uma raça estranhamente negra e pobre? A verdade é que eu fiz o que hoje me traz grande dor : classifiquei mais uma vez os seres. Quando eu soube da redução de preço aos dia de segunda, eu disse “Ah, só vai gueto, eu não irei ver filme neste cinema em dia de segunda-feira”. Foi isso mesmo que eu pensei. Com toda a minha ignorância do mundo. Eu acho que com isso eu matei e julguei, logo, matei duas vezes. O que eu na verdade estabeleci é que eu não ando com outros tipos de gente. Mas pelo amor de Jesus Cristo, todos nós somos iguais. Acaso sou melhor do que as pessoas de segunda-feira? Acaso não tem pessoas do meu meio de interação que vão para este cinema em dia de segunda-feira? O que são essas pessoas de segunda? São pessoas de segunda, meu Jesus. São pessoas que não são de terça ou de quinta. São puramente as de segunda mesmo. Quem saberá o quanto essas pessoas esperam pela segunda salvadora? O quanto essas pessoas esperam a milagrosa redução de preço? Essas pessoas esperam para amar nesta segunda, para rever os amigos nesta segunda. Quem sabe o coração do mundo bata mesmo é nesta segunda-feira. Quem sabe a sustentação da minha vida inteira esteja nesta segunda. São segundas de amor. Segundas de glória e perdão. São segundas quentes e calorosas. São segundas onde as mulheres confiam em dar à luz a seus bebês. São segundas de oração. As pessoas de segunda esperam com algum espanto o sábado e o domingo passarem para enfim poder vê o filme com certo amor debaixo dos braços. Os de segunda não é tão diferente de mim, na verdade um dia eu serei eles, sentados na primeira poltrona. Os de segunda tem sonhos. Eles sonham em se casar e sonham em ver a segunda chegar. É na segunda que a vida acontece. É o lugar que o coração respira fundo. É o lugar no qual a escuridão é sadia e esperada. É um lugar que as coisas acontecem com alguma delicadeza e paixão. O dia de segunda lá dentro do cinema, tudo é tudo. As pessoas são as pessoas, e as coisas são as coisas. Ninguém atrapalha o andamento dos seres. Ninguém incomoda ninguém de si ser. Os de segunda são autênticos, por isso temidos. A máscara verdadeira causa alguma dor que não sei dizer o porquê. Só sei que existe. Os de segunda não usam máscaras. Os de segunda são os de segunda, meu Deus. São sem nenhuma dor na alma. São sem frio. Os de segunda são interligados com os de segunda da outra semana. São os mesmos? Os de segunda tem alguma paixão por mim que desconfiei pelo olhar. Naquela tarde de segunda, os de segunda me olharam com alguma resignação... Eu também os encarei com o meu ódio que sinto por um direito que é meu. Direito? Eu também de certo modo os reconheci e me confundi também entre eles. Eu sou os de segunda? Apenas sei que em algum lugar deste universo que não sei medir existe alguém de segunda-feira. Parece que até vejo se aproximando e com certa glória ele chega e bate no meu ombro e pergunta “ Você está na fila? “. Eu nunca soube responder se estava ou não. Eu também nunca tive certeza se assisti ao filme ou não. Eu nunca sei de nada. É por isso que me odeio com algum amor.

3 comentários:

  1. [...]É por isso que me odeio com algum amor.Estreou em grande estilo hein nego? Espero ver muita água rolar por aqui ainda, abração!

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  2. O que me fascina no seu modo de escrever é o jogo de palavras que de forma suave se encaixam com perfeição.

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  3. noss, pelo visto os dois irmaozinho ai de cima, ja disseram tudo, artigo de ouro, num deixa apagar nao, quero pra mim

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